Cura do câncer não garante imunidade plena alerta pesquisa
A pergunta que preocupa as famílias após a cura da leucemia agora tem uma resposta científica contundente: sim, crianças curadas da leucemia linfoide aguda (LLA), um dos tipos de câncer mais prevalentes entre crianças e adolescentes no Brasil, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), precisam de um novo e completo ciclo de vacinação.
Um estudo brasileiro inédito, publicado no periódico científico internacional Vaccines, revela que a quimioterapia intensa, embora fundamental para a cura, compromete a chamada memória imunológica desses pacientes, deixando-os desprotegidos contra doenças preveníveis com vacinas como meningite, pneumonia, sarampo e coqueluche. O anúncio traz um alerta crucial para toda a comunidade médica e para os pais que celebram o fim do tratamento oncológico de seus filhos nas últimas décadas.
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O estudo de vacinas traz um alerta urgente para a saúde e demonstra que a cura do câncer não garante imunidade plena aos pacientes. A revisão sistemática, que reuniu evidências de 24 pesquisas internacionais realizadas entre 1981 e 2023, envolvendo 1.110 crianças e adolescentes tratados para leucemia linfoide aguda (LLA), revelou que o êxito contra este tipo de câncer exige um último passo: recuperar a proteção das vacinas.
Os dados do estudo mostram que o impacto desse comprometimento imunológico é consistente e clinicamente relevante, deixando brechas importantes na proteção dos pacientes. O nível de proteção contra sarampo, por exemplo, caiu 16%; para coqueluche, em alguns grupos, chegou a 0%. O alerta mais crítico, no entanto, veio das vacinas contra pneumonia e meningite, cujos níveis de proteção não ultrapassaram 38% e 12%, respectivamente.
“Nesse contexto, entendemos que o risco não está apenas na recaída da doença oncológica. Essa instabilidade confirma que, após a quimioterapia, a memória do corpo para combater essas doenças varia muito, ou seja, existe também a possibilidade de essas crianças desenvolverem infecções potencialmente graves por doenças que já deveriam estar controladas por vacinação. É por isso que a revacinação deve ser considerada como parte fundamental do processo de recuperação do paciente porque é a única forma segura de garantir que essas crianças estejam protegidas de verdade”, explica a médica reumatologista, professora e pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB) e coautora do estudo, Licia Mota.
Perda de memória vacinal após quimioterapia exige novas vacinas
A pesquisa também revelou que a memória imunológica leva até 5 anos para se recompor. Além dos achados sobre a queda dos níveis de proteção das vacinas para diversas doenças, o estudo brasileiro também trouxe outra descoberta que muda o pós-cura de crianças e adolescentes que passaram por tratamento quimioterápico no combate à leucemia linfoide aguda (LLA).
A pesquisadora Licia explica que por meio desse estudo, descobriu-se que embora as células de defesa imediata voltem ao normal rapidamente, as células que guardam a memória imunológica podem levar até cinco anos para se reconstruírem totalmente. “Durante esse tempo, o organismo da criança está, na prática, desprotegido contra vírus e bactérias que ele já deveria estar apto a combater”, alerta a especialista.
Encerrar a quimioterapia não significa, necessariamente, recuperação imunológica plena. A médica esclarece que o sistema imunológico funciona exatamente como uma grande biblioteca. Cada vacina que a criança toma ao longo da vida é um livro novo ensinando o corpo a se defender de invasores perigosos.
“O problema é que a quimioterapia para a LLA elimina parte das células de memória imunológica, é como se alguns livros fossem retirados das prateleiras dessa biblioteca’, complementa Licia. Segundo a pesquisadora, um dos impactos mais duros na vida prática está, por exemplo, no retorno à rotina escolar dos pequenos. “Voltar à sala de aula é um marco emocional para essas crianças e suas famílias. Porém, sem o escudo das vacinas, o ambiente escolar, cheio de trocas e contatos, pode se tornar um desafio inesperado”, pontua.
“Hoje conseguimos curar a maioria das crianças com leucemia. O próximo desafio é garantir que elas retornem à vida plenamente protegidas. A revacinação não é um detalhe do tratamento. Ela é parte da cura”, finaliza Licia. Com base nas evidências científicas do estudo, os pesquisadores estabeleceram diretrizes essenciais para garantir que a imunidade dos pacientes que fizeram tratamento quimioterápico para combater a LLA seja plenamente restabelecida no convívio social.
Recomendações e o estudo em números no Brasil
As orientações práticas pós-quimioterapia começam com o planejamento vacinal: O fim da quimioterapia deve marcar o início do planejamento vacinal. Como a reconstituição das células de memória imunológica pode levar até cinco anos, o início precoce desse cronograma é vital para evitar janelas prolongadas de vulnerabilidade. Outro ponto indispensável é o encaminhamento ao Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE). Para que essa proteção seja eficaz, é fundamental o suporte desses centros que oferecem imunizantes específicos necessários para cada perfil clínico de sistema imunológico severamente suprimido.
A revacinação deve ser abrangente, cobrindo tanto agentes virais quanto bacterianos, uma vez que o estudo demonstrou perdas críticas de anticorpos em diversas frentes, tornando necessário tratar o histórico vacinal como um novo começo. Essa atualização vacinal é, inclusive, um pré-requisito para o retorno seguro ao ambiente escolar, garantindo que a reintegração ocorra sem riscos biológicos.
Os números finais do estudo detalham o tamanho do problema:
- Pneumococo (Pneumonia e Meningite): A proteção caiu para níveis entre 5% e 38%. No Brasil, onde a pneumonia é uma das principais causas de internação infantil, o dado é preocupante.
- Sarampo e Caxumba: A proteção contra o sarampo variou de 16% a 86%, enquanto a caxumba ficou entre 25% e 79%.
- Coqueluche (Pertussis): O estudo identificou grupos onde a proteção residual foi de 0%, ressurgindo como uma grande ameaça.
- Tétano e Difteria: Até mesmo vacinas consideradas fortes sofreram abalos, caindo para níveis de 20% e 11%, respectivamente.
Ponto de Vista
Este estudo acende um alerta vermelho indispensável para as famílias e para as políticas públicas de saúde no Brasil. A cura da leucemia é uma vitória gigantesca, mas a batalha só termina quando o escudo imunológico dessas crianças estiver totalmente restabelecido.
Facilitar o acesso desses pacientes recuperados aos imunizantes especiais do CRIE e conscientizar os pais sobre a revacinação é um ato de responsabilidade que garante o retorno seguro à vida escolar e social.
É fundamental parabenizar a ciência brasileira por essa revisão sistemática minuciosa, publicada no periódico internacional Vaccines e liderada por instituições de peso como a UnB, Hospital da Criança de Brasília e a Fiocruz.
Esse trabalho, que analisou dados mundiais de mais de 1.100 pacientes, ganha ainda mais autoridade sob a condução de mentes brilhantes como a coautora Dra.Licia Mota.
Médica reumatologista da UnB e do HUB, doutora em Ciências Médicas e atual diretora científica da Sociedade Brasileira de Reumatologia, a Dra. Licia eleva o nome do Brasil na comunidade científica internacional, passando a integrar em 2026 o Conselho Consultivo Editorial da prestigiada Nature Reviews Rheumatology.
Uma trajetória brilhante já reconhecida com prêmios de enorme relevância, como o Prêmio Ao Espírito Panamericano da PANLAR 2026, o Prêmio JK do Correio Braziliense e o prêmio William Habib Chahade. Trazer esse respaldo técnico para o Informe Capixaba reforça o nosso compromisso em divulgar informações de saúde com máxima precisão e credibilidade.
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https://doi.org/10.3390/vaccines14050419
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Editora-Chefe: Vanuza Oliveira | Fonte: Juliana Wruck / Dra. Licia Mota | Foto: Divulgação | Redação: Informe Capixaba


