O uso de dados genéticos e inteligência artificial desafia o setor de saúde
Régis de Oliveira Júnior, jornalista formado pela Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) e especialista em inteligência artificial pela ESPM Tech São Paulo.
O preço do plano de saúde deixou de ser apenas um problema econômico. Ele se tornou uma decisão algorítmica. Em 2026, operadoras acumulam prejuízos e famílias enfrentam reajustes agressivos. A Inteligência Artificial (IA) já interfere, de forma silenciosa, no acesso ao cuidado.
Sem regras claras, o mesmo sistema que antecipa a cura pode se transformar em um filtro de exclusão. Imagine uma mulher de 35 anos que realiza um teste genético preventivo. O resultado indica alta predisposição ao câncer de mama associado ao gene BRCA.
O algoritmo entra em ação e um protocolo de monitoramento precoce é acionado. O tumor é identificado antes de se tornar agressivo. A quimioterapia é evitada e o sofrimento diminui. O custo do tratamento cai de forma expressiva. A tecnologia cumpre sua promessa.
No ano seguinte, essa mesma mulher tenta trocar de plano ou renegociar o contrato. Não há negativa formal, mas surge o que o mercado chama de seleção de risco automatizada. Ocorre um reajuste 40% acima da média ou uma proposta que nunca se concretiza.
Um silêncio administrativo empurra a decisão para fora do sistema. O risco deixa de ser clínico e passa a ser financeiro. O algoritmo deixa de proteger e passa a barrar. Esse dilema já se manifesta no Brasil.
Instituições de excelência utilizam a IA e dados genéticos com foco em prevenção e ética. O Hospital Israelita Albert Einstein opera o programa Predicta. Ele analisa riscos de até 22 tipos de câncer e 12 doenças cardiovasculares com sequenciamento genético.
A posição institucional é pública. A IA amplia a capacidade médica e não substitui o julgamento clínico. O Hospital Sírio-Libanês desenvolveu a Sofya, uma ferramenta de IA de raciocínio clínico.
Ela é voltada à organização de dados populacionais e à antecipação de tendências de saúde. A tecnologia atua como apoio para decisões e não como instrumento de exclusão. No Sistema Único de Saúde (SUS), o Hospital de Amor utiliza a IA.
O laboratório acompanha a jornada de pacientes oncológicos no sistema público. Agentes inteligentes ajudam a reduzir reinternações e organizar fluxos. A IA também serve ao interesse público quando existe governança.
A tecnologia não é um luxo privado. Em 2026, o Brasil inicia a implantação de uma rede nacional de hospitais inteligentes no SUS. O uso de IA acelera diagnósticos de Acidente Vascular Cerebral (AVC) e câncer.
O debate é nacional e não se limita a quem possui plano de saúde. O conflito surge quando essa eficiência encontra um setor pressionado. A saúde suplementar vive uma crise estrutural.
No primeiro semestre de 2025, a provisão para atendimentos atingiu R$ 28,6 bilhões. O dado é da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). O envelhecimento populacional acelera a pressão financeira.
Estudos indicam que a população idosa dobrará em 25 anos no Brasil. Isso elevará a despesa por pessoa em pelo menos 11% na próxima década. Grandes operadoras ampliaram o uso de IA e biometria facial.
O objetivo é combater fraudes e tentar conter a taxa de uso e custos, conhecida como sinistralidade. Não se trata de vilania, mas de sobrevivência econômica. O risco está na ausência de limites claros.
Sem regulação, a lógica de eficiência pode deslocar o sistema do cuidado coletivo para a triagem de riscos individuais. Quando a seleção automatizada opera sem explicação, a eficiência vira poder em vez de cuidado.
É aqui que a regulação precisa avançar. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) reconhece a sensibilidade extrema das informações genéticas. O Projeto de Lei nº 2.338/23 estrutura o Marco Legal da Inteligência Artificial.
Em 2026, esse projeto consolida o direito à explicação. O cidadão exige saber por que foi classificado, reajustado ou recusado. Esse direito precisa se materializar na saúde suplementar.
A ausência de normas complementares da ANS mantém um vácuo perigoso. Algoritmos influenciam decisões financeiras e contratuais sem transparência efetiva. O beneficiário sente o impacto, mas não enxerga o critério.
A solução não é proibir a tecnologia, mas governá-la. Ambientes de teste controlados na ANS permitiriam avaliar sistemas de IA sob supervisão. Seria possível analisar preconceitos e impactos sociais antes da adoção em massa.
A capacidade de auditoria e explicação precisa ser uma exigência legal. O impacto social já é visível. Seis em cada dez brasileiros com planos de coparticipação hesitam em buscar atendimento por medo do custo.
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por: Régis de Oliveira Júnior / Imagem IA Gemini


