
Um perfume de lavanda, um brilho de estrelas colidindo com as luzes de esparsos e longínquos fogos de artifício. O pisca-piscante das lâmpadas de natal nas sacadas ainda persistia piscando. Algumas já apagadas. Centenas de pessoas indo e vindo. A cidade fica ainda menor entre buzinas, sons, gargalhadas e o cheiro de frituras e bebidas. Uma ambulância grita por passagem ali perto e longe um carro de polícia avisa que está chegando.
De repente… um silêncio ensurdecedor e apenas as vozes sussurradas e o “ronronar” das ondas. Pessoas caminham apressadas para o mar, outras para casa, talvez elaborando o a energia que emanará quando começar a contagem regressiva para as badaladas do 24º ano do milênio.
Do alto da sacada do último andar do prédio mais alto, Maria Ninguém pensa se descerá ou não, se atenderá ou não o chamado das ondas, das luzes, o canto das águas, enfim, se fará as oferendas.
Todos agora caminham mais silenciosos e vozes aguardam ansiosas como se dentro de alguns minutos a vida mudasse totalmente, o mundo se transformasse, cessassem as guerras e houvesse paz…paz.
Em pontos variados, grupos orantes faziam suas prece; religiões originárias e ancestrais empurravam barcos floridos para o mar; pessoas “furavam” ondas, entravam no mar e davam pulinhos a cada vaga que lhes tocava os joelhos. Famílias inteiras de mãos dadas repetiam o ritual de pular ondas com orações católicas num sincretismo nunca visto. O mundo se alegrava com a espera. Afinal…
Velas, muitas velas. Cheiro de álcool misturava no ar vinho e champagne. Luzes de fogos silenciosos pipocavam e formavam figuras geométricas na escuridão da distância.
Maria Ninguém estava ali, procurou um lugar calmo, onde não havia aglomeração, entrou no mar com sua roupa toda branca e com água acima dos joelhos jogou-se sete vezes na água mergulhando de corpo inteiro sob as ondas .
A lua quase cheia observava e refletia o branco das vestes. Flores eram jogadas e Maria saiu na sétima onda com flores enfeitando-lhe o contorno molhado do corpo e caminhou vagarosamente para a margem. Todos abriram passagem para aquela mulher silenciosa e ousada.
Do alto do prédio, ainda com a roupa molhada, Maria viu e ouviu a contagem regressiva, os maravilhosos fogos que agora escreviam no céu um lindo “Feliz 2024”. Olhou aquele “mar de gente”, ergueu as mãos e fez o sinal da cruz como seus pais lhe ensinaram e falou baixinho: “Venha a nós o Vosso reino de paz e seja feita a Vossa vontade que, tenho certeza, é de acabar com as guerras, reflorestar as cidades e replantar as florestas, plantar e colher para alimentar o mundo sem agrotóxicos. E baixinho foi conversando com o Criador e adormeceu ali, com as roupas molhadas, só acordando com o sol a lhe mandar esperança e um bem te vi curioso gritou-lhe do alto de um fio de luz. Era já o primeiro de janeiro de 2024. Ligou a Tv para ouvir as novas mortes, os bêbados, os acidentes e ver os garis que, alegres por estarem trabalhando, limpavam a sujeira deixada pela falta de educação. Levantou-se um pouco dolorida, vestiu-se e foi à missa agradecer à divindade o dom da VIDA, o trabalho que a alimenta, a alegria do progresso e pedir pela paz nos lares, nos trabalhos, nas ruas e nos locais onde alguns imitadores de Herodes ainda matam crianças a cada nascer de novo dia. O mundo tem que ficar melhor porque VOCÊ passou por aqui. Feliz 2024! Esperançar!
Por Graça Andreatta/ Foto: wilpunt/Getty Images


