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Leitura: Cultivo da palmeira juçara gera renda e protege espécie ameaçada
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Cultivo da palmeira juçara gera renda e protege espécie ameaçada

Última Atualização 6 de junho de 2022 06:25
11 min de leitura
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Por Gabriela Knoblauch, com edição de Nicolle Expósito 

Copa da palmeira juçara com cachos de frutos ainda verdes
Quilo do fruto da palmeira juçara pode valer até quatro vezes mais que o do palmito / Foto: João Marcos/Nitro Imagens

Quando a família de Emerson Miranda adquiriu uma propriedade de 15 hectares em Santa Teresa, município distante cerca de 70 quilômetros da capital, Vitória, o cenário era muito diferente do que é hoje. O local era repleto de bananeiras, laranjeiras e 13 mil pés de café. A mata nativa se resumia a apenas um hectare.

Em 1990, Emerson e a esposa, Viviane Lopes, iniciaram o processo de recuperação da mata nativa. “A gente queria devolver a floresta para a natureza”, conta.

Hoje o sítio Rancho Fundo conta com mais de 10 hectares – o equivalente a 10 campos de futebol – de vegetação nativa. O caminho para o reflorestamento foi o plantio da palmeira juçara, espécie nativa da Mata Atlântica, similar ao açaizeiro, natural da Amazônia. Atualmente, a propriedade possui mais de 400 pés da juçara registrados no Programa Estadual de Ampliação da Cobertura Vegetal, o Reflorestar, da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Seama). Além disso, ostenta mais de 20 mil pés fora do programa.

FOTO SÍTIO RANCHO FUNDO
Ameaça de extinção

A palmeira juçara é uma espécie ameaçada de extinção por causa da extração do seu palmito. Como a planta é monocaule, a retirada do palmito causa a morte da árvore. Por isso, desde 2008 sua exploração é proibida. Entretanto, o palmito continua a ser extraído ilegalmente e é vendido no mercado disfarçado de pupunha e açaí.

Processo

Emerson conta que o reflorestamento foi feito por etapas. “Primeiro, criamos uma área de abandono (local onde a vegetação pode crescer livremente por tempo determinado sem nenhum plantio prévio). Isso dá a chance de as sementes que chegam no bico dos pássaros vingarem e nascerem. Depois, roçamos a capoeira (vegetação secundária composta por gramíneas e arbustos esparsos, que cresce após a derrubada da vegetação original). Deixamos apenas as mudas de até um dedo de espessura. Essas medidas enriquecem o solo naturalmente com a decomposição das folhas e frutos que caem, por exemplo.”

Em seguida, Emerson faz o manejo das árvores que surgiram naturalmente, sem a necessidade de plantio. O manejo consiste em limpar a área, afastando mudas muito próximas, para que seja possível a introdução de outras culturas como a juçara.

A palmeira promove uma restauração natural muito diversificada. É o que explica o agricultor: “As aves chegam para comer o fruto da juçara e trazem sementes, que caem no solo e germinam. Assim, em torno da juçara, cresce um ecossistema bem variado”, pontua.

FOTO JUÇARA
Além do surgimento natural de algumas espécies e do cultivo da juçara, Emerson também plantou na propriedade cacau, pupunha, cítricos, açafrão e café, por exemplo. Tudo no meio da floresta. Essas outras culturas são mantidas apenas para a subsistência, diferente do fruto da juçara, que é comercializado. “O extrativismo faz a floresta trabalhar para você”, comemora.

Recuperação do ecossistema

Dividido entre área de floresta densa e sub-bosque, o sítio Rancho Fundo hoje esbanja vida. Espécies em extinção voltaram a aparecer, como a samambaiaçu (espécie de samambaia com porte de árvore). É que o processo de reflorestamento trouxe de volta não só as árvores, mas também muitos animais. É o que observa Emerson:

“Cinco jacus moram lá. Com a florada da juçara, chegam a aparecer 30, bem como muitos tucanos, arapongas, sabiás-preto e várias outras espécies de aves. Também tem muitos macacos-prego, insetos, anfíbios e pequenos répteis. Fora do período de florada, há menos animais, mas bichos maiores aparecem por terem mais local de passagem. Tem muitos gatos-do-mato, caticocos (roedor também chamado de caxinguelê), iraras (semelhante aos furões), lontras e até onças”, conta.

Outra vantagem do reflorestamento foi a mudança observada no microclima. “No sítio vizinho, você não aguenta de calor. No nosso, a temperatura é amena, já que há sempre orvalho nas folhas e o solo está sempre úmido. A juçara depende desse clima para se disseminar. Por isso que ela não vai para o sítio vizinho, mesmo que os pássaros levem as sementes. Aqui foi criado um microclima”, relata.

FOTO EMERSON MIRANDA
Água é um recurso que não falta na propriedade, já que a juçara é protetora natural das nascentes. “Depois que reflorestamos, brota água onde não brotava. Brota água sem parar, mesmo sem chuvas. E a floresta segura muito a água. Mesmo na crise hídrica de 2013, ficamos protegidos. Sítios vizinhos precisaram ser abastecidos por caminhão pipa. Para nós, nem parecia que tinha crise hídrica”, lembra o proprietário do sítio Rancho Fundo.

Reflorestar

O trabalho desenvolvido na propriedade de Emerson só foi possível porque houve apoio do governo, em especial por meio do programa Reflorestar. “Ele foi vital para nós, bem como a parceria com o Incaper (Instituto Capixaba de Pesquisa e Extensão Rural) de Santa Teresa e o Iema (Instituto Estadual de Meio Ambiente)”, declara.

De acordo com a Seama, o Reflorestar é uma iniciativa do Estado que tem como objetivo promover a restauração do ciclo hidrológico por meio da conservação e recuperação da cobertura florestal. Além disso, o programa está focado na geração de oportunidades e renda para o produtor rural via fomento do manejo sustentável dos solos.

Marcos Sossai, coordenador da iniciativa criada em 2011, afirma que o Reflorestar já apoiou a restauração de aproximadamente 10 mil hectares no Espírito Santo. Além disso, o projeto faz Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) no estado, remunerando o produtor que preserva e recupera recursos naturais. “Reconhecemos, por meio do Pagamento por Serviços Ambientais, outros 10 mil hectares de florestas já existentes”, pontua Sossai.

FOTO PSA
Em 2008, o Espírito Santo foi o primeiro Estado do país a criar lei específica instituindo um programa estadual de PSA. Nessa época, o programa só reconhecia para pagamento as florestas estabelecidas. Em 2012, por meio da Lei Estadual 9.864/2012, o Estado passou a prestar apoio financeiro não só para a manutenção da floresta, mas também para sua recuperação.

O Programa Reflorestar adota dois modelos de restauração: ativa e passiva. A primeira ocorre por meio do plantio de espécies florestais e/ou da condução da regeneração. O método envolve grandes esforços e altos custos de implantação. Já a restauração passiva consiste no uso de práticas de fiscalização e monitoramento, isolamento do fator degradador, fornecimento de incentivos para manutenção, dentre outros. Pode viabilizar a restauração em larga escala já que é de baixo custo; por isso, é muito usada no cumprimento de acordos internacionais de reflorestamento.

ARTE REFLORESTAR
O Reflorestar foi idealizado pela Seama, por meio do Iema. Desde 2012, o programa é coordenado exclusivamente pela Seama, por intermédio do Núcleo de Gerenciamento do Programa Reflorestar.

Agricultura familiar

Emerson entende que a preservação ambiental não é viável sem que sejam levadas em conta as necessidades do produtor rural. “Essa é nossa grande luta. É preciso valorizar o produtor para viabilizar a preservação ambiental. Caso contrário, continuaremos a ver a exploração predatória dos recursos naturais”, destaca.

Em 2013, o Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Espírito Santo (Idaf) aprovou uma instrução normativa sobre as condições para a exploração sustentável do fruto da juçara. Emerson e Viviane, então, aprenderam o manejo da palmeira e adequaram a propriedade à instrução. Assim, Emerson tornou-se o primeiro produtor do estado com certificação para o manejo florestal da juçara.

Hoje, os proprietários do sítio Rancho Fundo vendem a polpa do açaí da juçara e dão consultoria para os palmiteiros da região. O casal ensina que é possível ter muito mais lucro com o fruto da palmeira, vendido a R$ 40 o quilo, do que com o palmito – comercializado a cerca de R$ 10.


“Cada palmeira gera para quem produz e beneficia seu fruto em torno de R$ 500 ao ano. É possível viver bem só da comercialização do fruto da juçara. Não tenho dúvidas da sua viabilidade comercial. Além disso, plantando a palmeira, recuperamos a floresta e contribuímos para o equilíbrio do meio ambiente. Vale muito a pena”, explica.

O estilo de vida verde de Emerson está em consonância com o tema do Dia Mundial do Meio Ambiente 2022, celebrado em 5 de junho. O ideal “Uma Só Terra” tem foco na vida sustentável em harmonia com a natureza.

Iniciativas na Ales

Ciente da relevância da palmeira juçara no estado, em especial em Rio Novo do Sul, a Assembleia Legislativa do Espírito Santo aprovou a Lei 11.583/2022, iniciativa do deputado Dr. Emílio Mameri (PSDB) que confere ao município o Título de Capital Estadual do Juçara.

Também tramita na Ales o Projeto de Lei (PL) 194/2022, proposta do deputado Marcelo Santos (Podemos) para criação da Rota do Juçara, que inclui os municípios de Rio Novo do Sul e Vargem Alta.

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